Apesar de seu trabalho memorialístico, Levi, que também era químico, escreveu obras de ficção: contos, novelas e poemas.
Aqui deixo um pequeno trecho do terceiro capítulo de A Trégua. Uma reflexão sobre um dos personagens que o autor conheceu em sua viagem de volta à casa.
E recomendo fortemente este livro para os interessados em Segunda Guerra ou para, antes de mais nada, os interessados em boa literatura, pois, tecendo as memórias do autor encontramos uma escrita expressiva e vigorosa, trabalhada com minúcia a fim de recriar todo o sentimento da dor e da esperança.
Tradução: Marco Lucchesi
É sabido que ninguém nasce com um decálogo no corpo, e cada qual constrói o próprio das coisas presentes ou das coisas passadas, com base nas experiências próprias, ou assimiláveis às próprias; razão pela qual o universo moral de cada um, oportunamente interpretado, identifica-se com a soma das experiências anteriores, e representa, pois, uma forma resumida de sua biografia. A biografia do meu grego era linear: aquela de um homem forte e frio, solitário e racional, que se movera desde a infância por entre as malhas rígidas de uma sociedade mercantil. Era (ou fora) acessível também a outras instâncias: não se mostrava indiferente ao céu e ao mar de seu país, aos prazeres de sua casa e de sua família, aos encontros dialéticos; mas fora condicionado a rechaçar tudo isso às margens da sua jornada e da sua vida, para que não perturbasse aquilo que ele chamava "travail d'homme". A sua vida fora uma guerra, e considerava vil e cego quem refutasse esse seu universo de ferro. O Lager chegara para ambos: eu o percebera como um monstruoso transtorno, uma horrenda anomalia de minha história e da história das coisas conhecidas; ele o considerara uma triste afirmação de coisas notórias. "Guerra é sempre, o homem é lobo do homem: velha história. [...]
Tradução: Marco Lucchesi
É sabido que ninguém nasce com um decálogo no corpo, e cada qual constrói o próprio das coisas presentes ou das coisas passadas, com base nas experiências próprias, ou assimiláveis às próprias; razão pela qual o universo moral de cada um, oportunamente interpretado, identifica-se com a soma das experiências anteriores, e representa, pois, uma forma resumida de sua biografia. A biografia do meu grego era linear: aquela de um homem forte e frio, solitário e racional, que se movera desde a infância por entre as malhas rígidas de uma sociedade mercantil. Era (ou fora) acessível também a outras instâncias: não se mostrava indiferente ao céu e ao mar de seu país, aos prazeres de sua casa e de sua família, aos encontros dialéticos; mas fora condicionado a rechaçar tudo isso às margens da sua jornada e da sua vida, para que não perturbasse aquilo que ele chamava "travail d'homme". A sua vida fora uma guerra, e considerava vil e cego quem refutasse esse seu universo de ferro. O Lager chegara para ambos: eu o percebera como um monstruoso transtorno, uma horrenda anomalia de minha história e da história das coisas conhecidas; ele o considerara uma triste afirmação de coisas notórias. "Guerra é sempre, o homem é lobo do homem: velha história. [...]